Nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar, Sophie Deram explica como as trends alimentares das redes sociais afetam o sistema de recompensa cerebral, aumentam a comparação social e podem alterar a relação das pessoas com a comida
O TikTok, dentre todas as redes sociais, se tornou um dos principais “guias alimentares” da atualidade, especialmente entre adolescentes e adultos jovens. Vídeos de receitas hiper palatáveis, dietas restritivas, desafios virais e os populares “what I eat in a day” (“o que eu como em um dia”, numa tradução livre) acumulam milhões de visualizações diariamente. Mas, por trás do entretenimento e da estética perfeita, especialistas alertam: o algoritmo pode estar influenciando diretamente a forma como o cérebro percebe comida, prazer, culpa e autoestima.
De acordo com um estudo publicado na revista Nature Communications, conteúdos digitais altamente estimulantes podem ativar mecanismos ligados ao sistema de recompensa cerebral de forma semelhante a outros estímulos de reforço imediato, aumentando impulsividade, desejo e comportamento compulsivo. Já uma pesquisa da Harvard T.H. Chan School of Public Health aponta que a exposição frequente a conteúdos sobre dietas e padrões corporais irreais nas redes sociais está associada a maior insatisfação corporal, ansiedade alimentar e risco de transtornos alimentares, especialmente entre mulheres jovens.
Para a nutricionista e neurocientista do comportamento alimentar Sophie Deram, o problema não está apenas no conteúdo em si, mas na repetição constante e personalizada promovida pelos algoritmos: “Nosso cérebro aprende por repetição. Quando uma pessoa passa horas consumindo vídeos que associam comida à culpa, recompensa, punição ou perfeição estética, ela começa a construir conexões emocionais automáticas em relação à alimentação. Isso altera percepção, desejo e até a forma como ela se sente ao comer”, explica.
Segundo a neurocientista, vídeos de “what I eat in a day” parecem inocentes, mas frequentemente funcionam como comparações sociais disfarçadas de rotina. “O cérebro humano é extremamente sensível à comparação social. Quando alguém vê repetidamente corpos considerados ideais acompanhados de rotinas alimentares restritivas, surge a sensação inconsciente de inadequação. A pessoa começa a acreditar que deveria comer menos, controlar mais ou performar uma alimentação ‘perfeita’ para ser aceita”, afirma.
O impacto vai além da autoestima: um levantamento publicado pelo Journal of Eating Disorders identificou que conteúdos sobre alimentação nas redes sociais frequentemente promovem informações nutricionais imprecisas, padrões restritivos e mensagens moralizantes sobre comida, reforçando ciclos de culpa alimentar e compulsão.
Para Sophie, o ambiente digital atual favorece extremos porque eles geram engajamento. “O algoritmo não está preocupado com saúde mental ou comportamento alimentar saudável. Ele privilegia aquilo que prende atenção. E conteúdos radicais, seja uma dieta impossível, uma receita exageradamente indulgente ou uma transformação corporal chocante, ativam curiosidade, desejo e comparação, que são gatilhos poderosos para o cérebro”, diz.
Outro ponto de atenção é o efeito psicológico da chamada “alimentação performática”, em que comer deixa de ser uma necessidade fisiológica e passa a funcionar como identidade, validação social e produção de conteúdo. “A alimentação virou espetáculo. As pessoas não estão apenas comendo; elas estão sendo observadas comendo. Isso muda a relação emocional com a comida, porque o foco deixa de ser fome, prazer e saciedade, e passa a ser aprovação social”, comenta Sophie.
A especialista alerta que esse cenário pode impactar especialmente adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento e apresenta maior sensibilidade à validação social e à recompensa instantânea. “Quanto mais cedo alguém aprende a associar comida à culpa, comparação ou performance, maior a chance de carregar uma relação conflituosa com a alimentação ao longo da vida”, diz Sophie.
Para ela, o caminho não é demonizar redes sociais, mas desenvolver consciência crítica sobre aquilo que se consome digitalmente, inclusive do ponto de vista emocional: “O algoritmo aprende rapidamente o que captura nossa atenção, mas nosso cérebro também aprende rápido aquilo que repetimos todos os dias. A pergunta que precisamos fazer é: estamos alimentando nosso corpo ou treinando nossa mente para viver em constante insatisfação?”, finaliza Sophie.
Sobre Sophie Deram
Sophie Deram é nutricionista, autora best-seller, pesquisadora em neurociência do comportamento alimentar e uma das principais vozes no Brasil sobre alimentação consciente e comportamento alimentar. Francesa naturalizada brasileira, é doutora pela Faculdade de Medicina da USP no departamento de endocrinologia. Ela coordena o projeto de genética do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC-FMUSP), com pesquisas em obesidade, obesidade infantil, transtornos alimentares, nutrigenômica e neurociência do comportamento alimentar.
Autora dos livros “O Peso das Dietas”, “Os 7 Pilares da Saúde Alimentar” e “Pare de engolir mitos” - publicados pela Editora Sextante , Sophie é referência nacional em nutrição comportamental, práticas nutricionais com ciência e consciência, ou seja, humanizadas e baseadas em ciência. Em seus atendimentos, palestras e conteúdos, defende o fim das restrições e o resgate do prazer de comer, influenciando milhares de pessoas a repensarem sua relação com a comida.