Por que (cada vez mais) empresas estão criando suas próprias fintechs

 O avanço acelerado das fintechs no Brasil e no mundo está provocando uma mudança profunda na forma como grandes empresas lidam com serviços financeiros. De varejistas a companhias de tecnologia, cresce o número de corporações que deixam de ser apenas clientes de bancos para se tornarem, elas mesmas, provedoras de soluções financeiras.

Esse movimento não é pontual, e reflete uma transformação estrutural no mercado global.

O Brasil, por exemplo, se consolidou como um dos principais polos de fintechs da América Latina. Entre 2020 e 2025, o número dessas empresas saltou de 1.158 para 2.048, representando um crescimento de 77%, segundo dados do Banco Central e entidades do setor. Até 2027, a expectativa é de que esse total ultrapasse 3 mil.


Esse crescimento consistente ajuda a explicar por que empresas de diferentes setores passaram a olhar para o segmento financeiro como uma extensão natural de seus negócios.


Na prática, isso significa oferecer serviços como crédito, meios de pagamento, antecipação de recebíveis e até contas digitais diretamente aos seus clientes e fornecedores.


Segundo análises do setor, essa estratégia permite às corporações acelerar a digitalização e resolver gargalos históricos, como acesso a crédito e gestão de fluxo de caixa, com mais eficiência. Além disso, um dos principais motores dessa tendência é o uso de dados. Ao criar uma fintech própria, a empresa passa a ter acesso direto ao comportamento financeiro de seus clientes, um ativo valioso para personalização de serviços.

Victor Franco Gomides

Para Victor Franco Gomides, diretor da Lince Participações, esse movimento é uma resposta direta à necessidade de controle e proximidade com o cliente. “Quando a empresa internaliza serviços financeiros, ela deixa de depender de terceiros e passa a ter domínio sobre dados estratégicos. Isso não só melhora a experiência do cliente, como abre novas fontes de receita.”, afirma.


Esse diferencial competitivo é ainda mais relevante em um cenário em que 64% das fintechs têm como foco o mercado B2B, segundo revelou a Pesquisa Fintech Deep Dive, realizada pela Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) e pela PwC Brasil, atendendo outras empresas e oferecendo soluções altamente customizadas.


Na prática, isso permite, por exemplo:

ofertar crédito com base no histórico real de compras;

antecipar recebíveis de fornecedores com menor risco;

criar programas de fidelização integrados a serviços financeiros.

Outro fator decisivo é a geração de receita, já que serviços financeiros possuem margens atrativas e recorrência, algo cada vez mais valorizado em mercados competitivos. Além disso, ao integrar soluções financeiras ao seu ecossistema, a empresa aumenta o chamado “lock-in” do cliente, reduzindo a chance de migração para concorrentes. “Não se trata apenas de diversificação, mas de aprofundar o relacionamento com o cliente”, afirma Gomides. “A fintech passa a ser um elo estratégico dentro do negócio.”, completa.


O avanço das fintechs indica que, em um futuro bastante próximo, a distinção entre empresas e instituições financeiras tende a se tornar cada vez mais difusa. Companhias que antes dependiam de bancos agora assumem esse papel, oferecendo soluções sob medida para suas cadeias de valor.

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