Campanha chama a atenção para a saúde das jovens que sofrem devido aos sintomas da menstruação, uma realidade para crianças a partir dos 10 anos. O médico pediatra Antonio Carlos Turner alerta que, sem informação ou tratamento, elas sentem fortes dores e acabam se ausentando das aulas
O sofrimento feminino e a banalização de suas dores históricas ganharam um novo capítulo de alerta no Brasil, evidenciando que o silêncio imposto às mulheres começa logo na infância. Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info revelou que quatro em cada dez meninas faltam às aulas pelo menos uma vez por mês devido a sintomas menstruais, o que representa um contingente alarmante de cerca de 3,6 milhões de estudantes afastadas das salas de aula. Entre as alunas que se ausentam, 16% chegam a perder de dois a cinco dias letivos mensalmente, um prejuízo educacional silencioso motivado por cólicas fortes ou moderadas que perturbam a rotina de 60% das jovens que menstruam. Esse cenário se agrava com um dado que acende o sinal vermelho para a pediatria nacional: 36,5% das meninas brasileiras têm a menarca antes dos 10 anos de idade. Com a média nacional fixada em 11 anos, a maioria das estudantes atinge a primeira menstruação ainda no Ensino Fundamental I, sem qualquer orientação prévia sobre o que esperar de seus próprios corpos e inseridas em uma estrutura escolar despreparada para apoiá-las. A precocidade também cobra um preço físico, já que o estudo demonstra que quanto mais cedo ocorre a menarca, mais intensa é a dor física relatada pelas meninas.
Essa realidade não afeta a todas de forma igual, expondo profundas desigualdades raciais e geográficas no país. Embora estudantes brancas e negras faltem à escola em proporções semelhantes, as meninas negras chegam a perder 50% mais dias de aula por mês. Em paralelo, as disparidades regionais de infraestrutura básica se mostram cruéis, sendo que a falta de banheiros adequados e de produtos de higiene pessoal aparece como o motivo principal para a ausência escolar de 30,2% das alunas no Centro-Oeste e de 18,9% na região Norte. O tabu e o desconhecimento generalizado alimentam esse ciclo de isolamento, visto que 36,8% dos meninos admitem simplesmente não pensar sobre o assunto e apenas 23,7% deles compreendem que o ciclo menstrual pode atrapalhar o rendimento escolar ou esportivo das colegas. Até mesmo quem ensina é impactada pela falta de amparo, com 10% das professoras relatando faltas ao trabalho no último ano pelo mesmo motivo.
“Tratar a menstruação e a dor como problemas puramente privados é perpetuar a invisibilidade de um sofrimento que começa no corpo e se desdobra na perda de oportunidades e direitos fundamentais. A pediatria é uma aliada nessa luta porque ser menina não deveria doer. A menstruação não pode ser um fator que impacte a saúde física e emocional das meninas”, diz o médico pediatra Antonio Carlos Turner, coordenador técnico da rede de clínicas Total Kids.
Diante desse diagnóstico perturbador, o Instituto Alana estruturou a frente estratégica "Ser menina não deveria doer", que propõe quatro mudanças urgentes e estruturais na sociedade. A iniciativa defende o reconhecimento da dor menstrual como um problema de saúde coletiva por meio de protocolos de faltas justificadas, a introdução da educação menstrual nas séries iniciais do Ensino Fundamental, a garantia de banheiros dignos com insumos básicos de higiene e a integração definitiva entre saúde e educação. Essa sinergia é fundamental para a realização de triagens clínicas nas redes de ensino, capazes de diagnosticar precocemente condições graves como a endometriose, que afeta 10% das mulheres e pode levar até 12 anos para ser descoberta, iniciando seus sintomas ainda na adolescência. Embora o Brasil possua o Programa Nacional de Dignidade Menstrual respaldado pela Lei nº 14.214/2021, a distância entre a legislação e a prática cotidiana permanece imensa. Dados documentados pelo UNICEF reforçam a urgência do debate ao apontar que mais de 4 milhões de meninas não têm acesso a itens mínimos de cuidados menstruais nas escolas, e 713 mil vivem sem banheiro ou chuveiro em suas próprias casas.
Antonio Carlos Turner
Médico pediatra e Coordenador da Rede de Clínicas Total Kids
CRM 52-46851-4
RQE 49635.