NR-1 e a gestão de riscos psicossociais: o novo eixo de governança nas organizações de saúde

 Por Simone Vicente


A saúde mental se tornou uma das principais preocupações contemporâneas, atravessando diferentes faixas etárias, contextos sociais e ambientes de trabalho. O aumento dos casos de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e afastamentos por transtornos psicológicos evidencia uma mudança estrutural no perfil de adoecimento da população. No Brasil, esse cenário ganhou ainda mais visibilidade após o país registrar, em 2025, mais de 546 mil afastamentos do trabalho relacionados à saúde mental, segundo dados do Ministério da Previdência Social. O número representa um novo recorde histórico e ajuda a explicar por que o tema deixou de ocupar apenas o campo do bem-estar para entrar definitivamente na agenda de gestão das empresas.


A velocidade das transformações digitais, o excesso de informação, a hiperconectividade, a pressão por performance contínua e a dificuldade crescente de estabelecer limites entre vida pessoal e profissional alteraram profundamente as relações de trabalho. Em muitos setores, a sensação permanente de urgência e comparação tornou-se parte da rotina. Nesse contexto, discutir saúde mental nas organizações não significa tratar apenas de acolhimento, mas compreender como estruturas de trabalho, modelos de liderança e dinâmicas operacionais podem potencializar processos de adoecimento.


É justamente nesse cenário que a atualização da NR-1 ganha relevância. A partir de maio de 2026, com a entrada em vigor da fase de autuação prevista pela Portaria MTE nº 4.219, empresas que não estruturarem o gerenciamento de riscos psicossociais em seus Programas de Gerenciamento de Riscos (PGRs) passam a estar sujeitas a fiscalização e penalidades. A norma representa uma mudança importante porque reconhece formalmente que fatores como sobrecarga, assédio, metas excessivas, jornadas exaustivas e ausência de suporte organizacional também produzem risco ocupacional.


Na prática, isso significa que a saúde mental deixa de ser tratada apenas como tema subjetivo ou comportamental e passa a integrar os mecanismos formais de governança, compliance e gestão de risco. A atualização da NR-1 exige que as organizações identifiquem fatores psicossociais, implementem medidas preventivas, monitorem indicadores e criem mecanismos consistentes de acompanhamento. Mais do que uma exigência regulatória, trata-se de uma resposta ao impacto humano, operacional e financeiro que o adoecimento mental vem produzindo nas empresas.


No setor da saúde, essa discussão se torna ainda mais sensível. Ambientes hospitalares e assistenciais convivem diariamente com alta pressão emocional, sobrecarga operacional e necessidade constante de tomada de decisão. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho e do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) apontam que aproximadamente 25% dos profissionais de enfermagem apresentam critérios diagnósticos para Burnout. Ao mesmo tempo, estudos ligados à Organização Mundial da Saúde (OMS) e à ISMA-BR indicam que afastamentos por transtornos mentais podem gerar custos até 3,5 vezes maiores do que lesões físicas, considerando queda de produtividade, necessidade de substituição e impactos operacionais.


Além do aspecto humano, existe também impacto financeiro direto. Organizações com aumento de afastamentos relacionados à saúde mental podem sofrer elevação do Fator Acidentário de Prevenção (FAP), mecanismo que influencia a alíquota do RAT (Riscos Ambientais do Trabalho). Isso amplia o custo sobre a folha de pagamento e reforça que saúde mental já não pode ser analisada apenas como pauta institucional ou reputacional.


Apesar disso, o nível de preparação do mercado ainda é desigual. Relatórios setoriais do primeiro trimestre de 2026 indicam que apenas 38% das grandes instituições de saúde incorporaram integralmente métricas de saúde mental aos seus PGRs. O dado mostra que boa parte das organizações ainda trata o tema de maneira reativa, concentrando esforços apenas diante da proximidade da fiscalização.


Na FIDI, esse movimento começou antes da atualização regulatória. O Programa Bem-Estar, implementado em 2021, foi estruturado para atuar em diferentes dimensões relacionadas à saúde dos colaboradores, incluindo suporte emocional, orientação financeira, apoio jurídico e ações voltadas ao ambiente ocupacional. A iniciativa reúne acompanhamento especializado, campanhas internas, capacitação de lideranças e monitoramento contínuo de indicadores, integrando o tema à rotina operacional da instituição


Mais recentemente, a adesão ao Pacto Global da ONU – Rede Brasil e ao Movimento Mente em Foco reforçou o alinhamento institucional da Fundação com práticas relacionadas à promoção da saúde mental, redução de estigmas e fortalecimento da cultura de cuidado dentro das organizações. Somado à atuação histórica da instituição junto ao Instituto Ethos, esse processo demonstra que a discussão sobre saúde mental não surgiu como resposta pontual à NR-1, mas faz parte de uma construção contínua de governança e sustentabilidade organizacional.


A principal mudança trazida pela NR-1 é precisamente essa: obrigar empresas a enxergarem saúde mental não como benefício adicional, mas como parte da sustentabilidade da operação. Em ambientes cada vez mais acelerados, complexos e pressionados por produtividade, cuidar das pessoas deixou de ser apenas um diferencial competitivo. Passou a ser uma condição necessária para manter equipes saudáveis, reduzir riscos e sustentar relações de trabalho mais equilibradas no longo prazo.


* Simone Vicente Reis é CEO da Fundação Instituto de Pesquisa e Estudo de Diagnóstico por Imagem (FIDI), organização social de saúde filantrópica que preza pela excelência e pelo atendimento humanizado, sendo referência em soluções para diagnóstico por imagem, com tecnologia de última geração e equipe altamente qualificada.

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