Juros sob pressão: incerteza externa paralisa o Fed e risco interno engessa o Brasil

 Petróleo e geopolítica travam decisões nos EUA; por aqui, falta de âncora fiscal impede cortes mais consistentes

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Bruno Corano: Superquarta revela dois impasses, cautela nos EUA, desconfiança no Brasil

"Hoje foi mais um dia relevante para as economias brasileira e americana. Tivemos a chamada “superquarta”, com decisões simultâneas de política monetária nos dois países.


Nos Estados Unidos, o Federal Reserve optou por manter a taxa de juros. No Brasil, o Banco Central seguiu um caminho diferente, com um corte marginal, bastante conservador.


Começando pelos Estados Unidos, o ponto central continua sendo a inflação, e, mais especificamente, a dificuldade de trazê-la de volta para a meta de forma consistente. A inflação americana vinha dando sinais de desaceleração, especialmente após o impacto inicial de políticas mais restritivas e também depois de alguns choques anteriores, como a política tarifária. Havia, inclusive, uma leitura de que o processo estava relativamente sob controle.


Mas o cenário voltou a se complicar.


O conflito envolvendo Irã e Estados Unidos reintroduz uma variável que o mercado não consegue precificar com clareza: o comportamento do petróleo. E essa é uma variável crítica porque tem impacto direto sobre inflação, expectativas e, consequentemente, sobre a condução da política monetária.


Hoje, o problema não é exatamente o nível atual de inflação, mas a incerteza sobre o que vem pela frente. Ninguém sabe com precisão por quanto tempo o petróleo pode permanecer pressionado, nem até que patamar ele pode chegar.


Existe um cenário em que o conflito se estabiliza rapidamente, e o impacto inflacionário é limitado. Mas também existe, ainda que menos provável, um cenário de escalada, em que o petróleo dispara e contamina a inflação de forma mais persistente.


E é justamente essa assimetria que trava o Banco Central americano.


Diante disso, a decisão de manter a taxa de juros não é apenas compreensível, ela é coerente com o momento. Jerome Powell sinalizou claramente uma postura de cautela, reconhecendo que o maior risco hoje é agir com base em um cenário que ainda não está definido.


Outro ponto relevante é o contexto político. Figuras como Donald Trump adicionam um grau adicional de imprevisibilidade ao cenário. Há uma pressão evidente para evitar desgaste econômico em um ambiente eleitoral, e isso passa, inevitavelmente, pelo impacto da inflação no bolso da população.


No fim do dia, é isso que define o humor econômico: custo de vida. E qualquer movimento que pressione energia e combustíveis rapidamente se traduz em percepção negativa por parte da sociedade.


Por fim, há também uma transição institucional importante. Essa foi, na prática, a última reunião sob a presidência de Powell nesse formato. Com a aprovação de Kevin Warsh pelo Senado, encerra-se um período de indefinição.


Ainda assim, Powell deixou claro que, embora deixe a presidência, pretende permanecer no board até que qualquer questionamento institucional ou jurídico esteja completamente resolvido, o que mostra que a transição, embora encaminhada, ainda exige algum grau de cautela.


Enquanto isso, no Brasil, o Banco Central segue desempenhando, na minha leitura, um dos papéis mais difíceis da economia hoje.


Isso porque a política monetária está sendo obrigada a compensar distorções que não nascem nela, em especial, na condução fiscal. Há um desalinhamento claro entre política fiscal e monetária, o que cria uma dinâmica pouco eficiente. É como se a economia estivesse, ao mesmo tempo, acelerando e freando.


Nesse contexto, o Banco Central acaba sendo pressionado a manter juros elevados não apenas por causa da inflação corrente, mas principalmente pelo risco percebido do país.


E esse é um ponto importante: o nível de juros no Brasil hoje não é explicado exclusivamente pela inflação. Ele incorpora um prêmio de risco relevante. Em tese, seria possível trabalhar com juros nominais mais baixos, mesmo com inflação próxima de 4%, e ainda assim manter um juro real elevado. Mas isso só seria viável em um ambiente de maior previsibilidade fiscal.


Na prática, não é o que temos.


As recentes reduções de 0,25 ponto percentual, embora relevantes do ponto de vista sinalizador, têm impacto limitado no curto prazo. Se mantido esse ritmo, o efeito acumulado será lento e pouco perceptível, especialmente considerando o tempo de transmissão da política monetária, que costuma levar vários meses para se refletir na economia real.


Além disso, há um fator adicional que dificulta qualquer ciclo mais consistente de queda de juros: o cenário à frente. O risco inflacionário não está apenas no presente, mas no que pode vir. O conflito internacional recente adiciona pressão sobre commodities energéticas, especialmente o petróleo, que é, possivelmente, o insumo mais disseminado dentro da economia.


O petróleo não impacta apenas combustíveis. Ele está presente em cadeias produtivas inteiras, da logística à produção industrial, passando por embalagens, fertilizantes e transporte de alimentos. Ou seja, qualquer elevação relevante no preço tende a se espalhar de forma ampla pelo sistema.


Isso cria um ambiente em que, mesmo com desejo de redução de juros, as condições objetivas não são favoráveis. E há ainda um componente doméstico importante: a dinâmica fiscal e o ciclo político. A proximidade de eleições tende, historicamente, a ampliar pressões por gasto público, o que eleva o nível de incerteza sobre a trajetória das contas públicas.


Sem uma âncora fiscal clara, a tendência é que o prêmio de risco permaneça elevado, o que limita o espaço para cortes mais agressivos de juros.


Por isso, existe uma probabilidade relevante de que esse ciclo de redução seja mais curto ou mais limitado do que o esperado. Não seria a primeira vez que um processo de queda de juros é interrompido por deterioração de expectativas.


Isso não significa que um cenário mais benigno seja impossível. Uma mudança de percepção em relação à condução fiscal, seja por ajuste de trajetória ou por expectativa de maior disciplina no futuro, poderia abrir espaço para uma reprecificação mais favorável.


E a história recente mostra que isso é possível. Após a crise do governo Dilma Rousseff, o país conseguiu, em um intervalo relativamente curto, reduzir inflação e juros sob a gestão de Michel Temer, a partir de uma mudança clara de direção na política econômica.


No fim, o ponto central é que o comportamento dos juros no Brasil depende menos da inflação corrente e mais da confiança na trajetória futura. Sem isso, qualquer alívio tende a ser parcial, e potencialmente temporário."


Bruno Corano, economista da Corano Capital 


Isabel Braga é CEO da Closet BoBags e da BoGo. Ambas priorizam a Economia Circular e o aproveitamento, em respeito ao meio ambiente

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