Pesquisa da Serasa Experian indica que 1 em cada 3 empresas já registrou inadimplência; especialista explica ligação da maior parte dos casos a falhas sistêmicas e de processo
A inadimplência no consignado privado, voltado a trabalhadores CLT, acendeu um alerta importante no mercado de crédito: o problema não está apenas na capacidade de pagamento do trabalhador, mas, sobretudo, na execução operacional e na robustez dos sistemas envolvidos. Levantamento da Serasa Experian mostra que a inadimplência atinge cerca de 1 em cada 3 empresas e que 65% dos episódios decorrem de falhas sistêmicas/operacionais, um sinal de que o produto pode perder eficiência justamente onde deveria ser mais previsível: no desconto em folha.
O dado chama atenção porque o consignado CLT carrega uma promessa clara de mercado: oferecer um crédito com risco menor, dado o mecanismo de desconto em folha. Na prática, porém, a pesquisa mostra que, quando a jornada depende de integrações frágeis, fluxos manuais e atraso de informações, o risco migra do tomador para o processo, e o custo aparece para todos: empresa, colaborador e instituição financeira.
Entre os principais pontos de falha citados pelas empresas neste levantamento, estão atrasos no repasse de informações entre RH e instituição financeira (30%), falhas de integração com eSocial/Dataprev (22%) e problemas no desconto em folha (13%). Em outra publicação da Serasa Experian sobre o tema, o estudo destaca que apenas 33% dos casos estão relacionados diretamente à falta de pagamento por parte do colaborador, reforçando a tese de que há um gargalo estrutural na operação do produto.
Para Kaike Ribeiro, CEO da Finanto e especialista em inovação financeira, o consignado CLT está em um ponto de virada. “Quando um produto desenhado para ter previsibilidade depende de processos fragmentados e pouca padronização, a inadimplência deixa de ser um ‘evento de crédito’ e passa a ser um ‘evento de operação’. A correção, portanto, precisa atacar a infraestrutura: integração confiável, governança clara e rastreabilidade ponta a ponta”, afirma.
Onde o sistema falha e por que isso vira inadimplência
Na leitura do executivo, a inadimplência no consignado CLT nasce com frequência de três situações práticas: descompasso de dados entre RH, plataformas e bancos; descontos que não ocorrem no tempo correto por inconsistências de folha; e ausência de rotinas automáticas de conciliação que detectem rapidamente divergências e corrijam o fluxo antes de virar atraso.
“O trabalhador pode ter intenção e capacidade de pagar, mas se o desconto não acontece como previsto, a dívida se desloca para um terreno confuso. Isso gera desgaste com o colaborador, ruído com o RH e insegurança para o crédito. Em um produto sensível como esse, a experiência precisa ser tão sólida quanto a taxa”, diz Kaike.
Caminhos para destravar o consignado CLT com mais segurança
A pesquisa da Serasa Experian ajuda a apontar o que precisa evoluir para que o consignado privado ganhe escala com confiança. Na prática, o especialista defende ajustes como:
Padronização operacional e SLAs claros entre empresa, originadores e bancos (prazos, responsabilidades e evidências de cada etapa);
Integrações mais robustas e monitoramento contínuo, reduzindo dependência de processos manuais e “retrabalho” do RH;
Conciliação automática do desconto em folha, com alertas precoces para correção antes do vencimento;
Transparência para o trabalhador, com trilha de acompanhamento e comunicação clara sobre status do desconto, saldo e parcelas.
“O consignado CLT tem potencial de ser uma linha relevante para o trabalhador porque, bem operado, tende a ser mais previsível do que modalidades rotativas e emergenciais. Mas, para cumprir essa promessa, a indústria precisa tratar a operação como infraestrutura crítica, com qualidade de dados, automação e governança”, conclui Kaike.
O avanço do consignado CLT passa menos pela criação de novas linhas de crédito e mais pela solidez da operação. Quando falhas sistêmicas deixam de ser exceção e passam a ser recorrentes, o impacto ultrapassa o aspecto técnico e afeta empresas, instituições financeiras e a confiança do trabalhador no produto. A evolução desse modelo exige integração consistente entre sistemas, padronização de processos e uso qualificado de dados para garantir previsibilidade e rastreabilidade do desconto em folha. Sem esses ajustes, a inadimplência tende a refletir fragilidades operacionais, e não necessariamente o comportamento de quem toma o crédito.