Volta aos exercícios após as festas exige atenção aos riscos cardíacos, alerta especialista

 Com o fim das festas de fim de ano e do Carnaval, é comum que muitas pessoas retomem a prática de atividades físicas de forma intensa, motivadas por metas estéticas ou pela promessa de "compensar excessos".


De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a inatividade física é um dos principais fatores de risco para mortalidade global, associada a cerca de 5 milhões de mortes por ano. No Brasil, dados do Ministério da Saúde apontam que mais de 50% da população adulta não pratica atividade física suficiente. Esse cenário preocupa especialistas, especialmente quando indivíduos sedentários decidem iniciar treinos de alta intensidade sem avaliação médica prévia.


Segundo o cirurgião cardiovascular Dr. Élcio Pires Júnior, coordenador de cirurgia cardiovascular nos Hospitais da Rede D'Or, do Hospital Bom Clima de Guarulhos e cirurgião cardiovascular dos hospitais Hospitalis de Barueri e Hospital Blanc de São Paulo, o risco não está no exercício em si, mas na forma como ele é retomado.


“O exercício físico é um dos pilares da prevenção cardiovascular. O problema surge quando a pessoa que ficou meses parada decide começar correndo cinco quilômetros ou fazendo treinos intervalados de alta intensidade. O coração, assim como qualquer músculo, precisa de adaptação progressiva”, afirma o médico.


Ele explica que o esforço súbito pode desencadear desde arritmias e picos hipertensivos até eventos mais graves, como infarto agudo do miocárdio, especialmente em pessoas com fatores de risco não diagnosticados, como hipertensão, diabetes, colesterol elevado ou histórico familiar de doença cardíaca.


Estudos publicados no Journal of the American College of Cardiology mostram que o risco de eventos cardíacos durante o exercício é significativamente maior em indivíduos sedentários quando comparados àqueles que mantêm prática regular e supervisionada. A boa notícia é que esse risco diminui de forma expressiva quando a atividade física passa a ser constante e progressiva.


Exemplos práticos ajudam a entender o cenário. Um homem de 45 anos, com sobrepeso e histórico familiar de infarto, que decide participar de uma corrida de 10 km sem preparo adequado, está mais vulnerável a complicações do que alguém que iniciou caminhadas leves e evoluiu gradualmente ao longo de semanas. O mesmo vale para quem retorna à academia e já inicia com cargas elevadas e treinos exaustivos.


“Antes de retomar ou iniciar um programa de exercícios, especialmente após os 40 anos ou na presença de fatores de risco, é fundamental passar por avaliação médica. Em alguns casos, exames como teste ergométrico ou avaliação cardiológica completa são indicados para garantir segurança”, orienta o Dr. Élcio.


O especialista destaca ainda sinais de alerta que não devem ser ignorados durante o treino: dor no peito, falta de ar desproporcional ao esforço, tontura, palpitações intensas ou sensação de desmaio. “Esses sintomas exigem interrupção imediata da atividade e avaliação médica. Não é normal sentir dor no peito ao se exercitar”, reforça.



A recomendação dos cardiologistas é clara: iniciar com atividades leves, como caminhadas de 20 a 30 minutos, três vezes por semana, e aumentar gradualmente intensidade e duração. O ideal é que o planejamento seja individualizado, respeitando idade, histórico clínico e condicionamento físico.


“O objetivo não deve ser compensar excessos em poucos dias, mas construir um hábito sustentável. O coração responde muito melhor à regularidade do que a picos de esforço”, conclui o médico.

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