Obesidade não é falta de força de vontade: o impacto do estresse, do sono e dos hormônios no ganho de peso

 Condição crônica e multifatorial, o excesso de peso envolve mecanismos cerebrais, hormonais e metabólicos que vão muito além de escolhas individuais


Durante décadas, o excesso de peso foi tratado como sinônimo de descontrole individual. Se alguém engordava, a explicação parecia simples: comeu demais, exercitou-se de menos, faltou disciplina. Essa narrativa, embora confortável, ignora um ponto central: a obesidade é uma doença crônica, complexa e biologicamente regulada.


Reconhecida como doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), pela Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO) e por sociedades médicas internacionais, a obesidade envolve múltiplos mecanismos fisiológicos que vão muito além da escolha alimentar.


“O corpo não é uma calculadora simples de calorias. Ele é um sistema adaptativo que reage ao estresse, ao sono, aos hormônios e ao ambiente”, explica a endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma – O equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor.


Um dos conceitos centrais que mudaram a compreensão da obesidade é o de adaptação metabólica. Quando uma pessoa ganha peso, o cérebro passa a reconhecer aquele novo patamar como referência. Quando ela emagrece, o organismo ativa mecanismos de defesa: aumenta hormônios que estimulam a fome, reduz os que promovem saciedade e diminui o gasto energético basal.


Isso ajuda a explicar por que apenas 5% a 10% das pessoas conseguem manter perda de peso significativa no longo prazo sem intervenção contínua. A maioria recupera parte ou todo o peso perdido entre dois e cinco anos, segundo revisões clínicas de acompanhamento longitudinal.


“Se fosse apenas força de vontade, esses números seriam diferentes. O que vemos é que o corpo reage ao emagrecimento como se estivesse sob ameaça”, afirma Rascovski, que também é diretora médica da clínica Atma Soma.


A obesidade, portanto, não é falha moral. É uma condição crônica e recidivante, influenciada por genética, regulação hormonal, inflamação crônica de baixo grau, ambiente alimentar ultraprocessado, fatores emocionais e sociais.


Estresse crônico: quando o corpo entra em modo de sobrevivência


O estresse é um dos fatores menos discutidos na obesidade, e um dos mais relevantes. Quando enfrentamos pressão constante, o corpo ativa o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA). O hipotálamo libera CRH, a hipófise responde com ACTH, e a glândula adrenal produz cortisol.


Em situações agudas, o sistema funciona como deveria. O cortisol sobe para mobilizar energia, aumentar glicose e manter estado de alerta, e depois cai.


Mas no estresse crônico, esse sistema perde o equilíbrio. O ritmo circadiano do cortisol, que deveria ser alto pela manhã e baixo à noite, pode se achatar. Em vez de oscilar como uma onda saudável, permanece elevado ou desregulado.


“O cortisol alto favorece resistência à insulina, aumenta o depósito de gordura visceral e reduz a capacidade de ganhar massa muscular”, explica a endocrinologista. “O corpo entra biologicamente em modo de sobrevivência. E, nesse estado, ele não favorece emagrecimento, mas sim armazenamento.”


Além disso, o estresse altera centros de recompensa cerebral, tornando alimentos ricos em açúcar e gordura mais atrativos. Não se trata apenas de escolha consciente, mas de modulação neurobiológica.


Dormir pouco desregula os hormônios da fome


O sono é outro pilar frequentemente negligenciado. Um estudo publicado no JAMA Internal Medicine em 2022, liderado por Esra Tasali, acompanhou adultos com sobrepeso que dormiam menos de 6,5 horas por noite. Ao aumentar o tempo de sono em cerca de 1,2 hora, sem qualquer orientação alimentar, os participantes reduziram espontaneamente cerca de 270 calorias por dia.


O inverso também é verdadeiro: dormir pouco pode levar a um consumo adicional médio de 250 a 300 calorias diárias. Em um mês, isso representa aproximadamente 9.000 calorias extras, o equivalente a cerca de 1 kg de gordura acumulada ao longo de semanas.


Outro estudo clássico, conduzido por Spiegel e publicado nos Annals of Internal Medicine (2004), demonstrou que duas noites dormindo apenas quatro horas reduziram os níveis de leptina (hormônio da saciedade), aumentaram a grelina (hormônio da fome) e elevaram a sensação de fome em cerca de 24%.


“Dormir pouco não afeta apenas o cansaço. Afeta diretamente os hormônios da fome”, afirma Rascovski. “Quando o sono é insuficiente, a leptina diminui, a grelina aumenta e a sensibilidade à insulina piora.”


Na prática, isso significa mais fome, menor saciedade e maior tendência ao armazenamento de gordura. “A melatonina não regula apenas o sono, ela organiza o metabolismo. Quando dormimos pouco, não estamos apenas cansados. Estamos metabolicamente desregulados.”


Obesidade e menopausa: uma transição hormonal crítica


A regulação do peso também é profundamente influenciada pelos hormônios sexuais. Durante a menopausa, a queda do estrógeno altera a distribuição de gordura corporal, favorecendo acúmulo visceral e piora da resistência à insulina.


Além disso, sintomas como insônia, ondas de calor e alterações de humor podem amplificar o estresse fisiológico, criando um ciclo que dificulta ainda mais o controle metabólico.


“Não é incomum que mulheres que sempre tiveram peso estável passem a enfrentar ganho de peso na transição menopausal, mesmo sem mudanças significativas na alimentação”, explica a médica.


Isso reforça a necessidade de abordagem individualizada, que considere o contexto hormonal e metabólico, e não apenas a balança.


Combater o estigma também é tratar a doença


A obesidade carrega um fardo que vai além das alterações metabólicas: o julgamento social. “Culpar o paciente não trata a doença. Só amplia o sofrimento. Ninguém diz que um asmático não se esforça o suficiente para respirar melhor. Mas ainda insistimos em tratar a obesidade como falha moral.”


O impacto desse estigma não é apenas emocional. Ele afasta pacientes do cuidado, dificulta o acesso ao tratamento e reforça ciclos de culpa que, paradoxalmente, pioram o quadro clínico.


“A ciência já avançou. Sabemos que o peso corporal resulta de uma interação complexa entre cérebro, hormônios, sono, estresse, genética e ambiente. Reduzir essa equação a ‘força de vontade’ não é apenas simplista, é incorreto”, finaliza Alessandra Rascovski.


Sobre a Atma Soma


Liderada pela endocrinologista Alessandra Rascovski, autora do livro Atmasoma: o equilíbrio entre a ciência e o prazer para viver mais e melhor - a clínica tem foco na prática da medicina de soma, unindo várias especialidades em prol dos pacientes, respeitando a sua individualidade e oferecendo a eles uma vida longa e autônoma.


A clínica conta com um time de médicos e profissionais assistenciais de diversas áreas, como endocrinologia, urologia, ginecologia, nutrição, gastroenterologia, geriatria, dermatologia, estética, medicina oriental e ayurveda, com olhar dedicado à prática do cuidado focado no eixo neurocognitivo, metabólico e hormonal.

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