Pesquisa com mais de 1.100 mulheres australianas mostra que o nível mais baixo de testosterona ocorre por volta dos 59 anos e que a transição hormonal não justifica a suplementação generalizada
No mês em que celebramos o Dia Internacional da Mulher, falar sobre saúde feminina é também reconhecer que o envelhecimento hormonal é um processo natural, complexo e profundamente individual. Um estudo publicado no periódico científico The Lancet eBioMedicine, conduzido pelo Australian Women’s Midlife Years Study (AMY), contribui para esse debate ao analisar a trajetória da testosterona ao longo da vida da mulher e sua relação com a menopausa.
A pesquisa acompanhou 1.104 mulheres entre 40 e 69 anos e observou que, ao contrário da percepção difundida socialmente, a menopausa natural não provoca uma queda abrupta nos níveis de testosterona. O declínio ocorre de forma gradual e está mais relacionado com o envelhecimento cronológico do que com o estágio reprodutivo.
“Diferentemente do estrogênio, cujos níveis diminuem de maneira significativa com a interrupção da menstruação, gerando sintomas como ondas de calor, alterações de humor e secura vaginal, a testosterona segue uma curva mais lenta e progressiva ao longo das décadas”, explica a ginecologista Martha Calvente, da clínica CDPI e do Alta Diagnósticos, da Dasa, no Rio de Janeiro.
Os dados indicam que os níveis de testosterona reduzem cerca de 25% a partir dos 40 anos, mas essa queda começa ainda por volta dos 20 anos, atingindo níveis mais baixos em média aos 58–59 anos. O estudo também mostrou que os ovários continuam contribuindo para a produção de testosterona mesmo após a menopausa, o que é evidenciado pelo fato de que mulheres submetidas à retirada cirúrgica dos ovários apresentaram níveis significativamente menores do hormônio.
Não foram observadas diferenças importantes nos níveis de testosterona entre mulheres na pré, peri ou pós-menopausa, reforçando que a transição menopausal por si só não determina mudanças abruptas nesse hormônio.
Menopausa, qualidade de vida e individualização do cuidado
A menopausa não deve ser encarada como uma doença, tampouco deve ter seus impactos minimizados. Trata-se de uma transição biológica que pode ser vivida de forma muito diferente por cada mulher – algumas atravessam essa fase com poucos sintomas, enquanto outras experimentam impacto significativo na qualidade de vida.
Segundo a endocrinologista Rosita Fontes, dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, também da Dasa, embora a testosterona tenha um papel importante para o desejo sexual, a saúde ovariana e a fertilidade ao longo da vida, a queda desse hormônio é natural e esperada, o que não reflete uma necessidade fisiológica de reposição.
“A suplementação de testosterona só possui indicação para tratar o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH), conhecido por “baixa libido”, em mulheres na pós-menopausa e após um diagnóstico médico criterioso, depois da exclusão de possíveis condições clínicas que justifiquem essa manifestação. Não há evidências de que o hormônio melhore o humor, o bem-estar ou a cognição de forma generalizada. E seu uso inapropriado, visando ao aumento da massa muscular, é contraindicado, já que leva a enormes prejuízos à saúde. Esse estudo é importante para chamar a atenção de todos, especialmente das mulheres nessa fase da vida, para sempre procurarem atendimento médico especializado para orientação sobre o tratamento. A menopausa por si só não é uma indicação para a reposição de testosterona”, afirma.
As fases da transição hormonal
A ginecologista Martha Calvente explica que a jornada reprodutiva feminina pode ser dividida em três fases principais:
Pré-menopausa - é o período que vai da primeira menstruação até a fase final dos ciclos regulares. Os hormônios oscilam de forma previsível.
Perimenopausa (climatério) - é a fase de transição que antecede a menopausa e vai até um ano após a última menstruação. O funcionamento ovariano torna-se intermitente, o FSH tende a subir e o estrogênio passa a oscilar de maneira irregular.
Menopausa - é definida pela ausência de menstruação por 12 meses consecutivos, geralmente entre 45 e 55 anos.
Para avaliar cada fase e acompanhar a saúde global da mulher, alguns exames laboratoriais são frequentemente solicitados:
Hormônio Folículo-Estimulante (FSH) – é produzido pela hipófise para estimular os ovários. Contudo, quando estes param de funcionar, a produção de FSH sobre muito, como um sinal de que o corpo não está tendo resposta.
Estradiol – é o principal estrogênio liberado pelos ovários na vida reprodutiva. Com a interrupção da atividade ovariana, a produção de estradiol despenca.
Hormônio Anti-Mülleriano (AMH) – esse exame é mais comum na fase da perimenopausa ou para avaliar a reserva ovariana e a fertilidade, já que ele reflete a quantidade de folículos restantes nos ovários. Na menopausa, os níveis são indetectáveis ou extremamente baixos, sinalizando que o estoque de óvulos acabou.
De acordo com Rosita Fontes, a queda do estrogênio afeta o corpo todo, por isso, no período que antecede a menopausa ou depois dela, os médicos costumam pedir exames complementares para avaliar os riscos dessa nova fase. Entre eles estão:
Hemograma – avalia a presença de anemia, comum no período que antecede a menopausa, quando as menstruações podem se tornar mais longas e intensas. Pode ser complementado com um estudo do metabolismo do ferro.
Perfil lipídico (colesterol total, LDL colesterol, HDL colesterol, triglicérides, não HDL colesterol) – checa as gorduras do sangue e indica a necessidade de exames complementares ou tratamento em caso de dislipidemia.
TSH – avalia a função tireoidiana, já que o hipotireoidismo é mais frequente nessa fase da vida.
Glicose e hemoglobina glicada – rastreiam o pré-diabetes e o diabetes mellitus.
Creatinina – detecta precocemente doença renal crônica.
Enzimas hepáticas, TGO e TGP – avaliam a função do fígado.
Densitometria óssea – verifica se a queda do estrogênio está causando perda de massa óssea. Em caso de osteopenia ou osteoporose, exames complementares (cálcio, fósforo, vitamina D, PTH, CTx) avaliam o metabolismo do cálcio.
Mamografia e colonoscopia – rastreiam câncer de mama e colorretal, devendo ser mantidas após a menopausa conforme orientação médica.
A dra. Rosita reforça que é importante manter as consultas com o ginecologista, realizando os exames de prevenção de câncer, e com outros especialistas, se houver condições associadas como hipertensão arterial, obesidade ou diabetes.
Além dos hormônios: a tecnologia genética a serviço da saúde feminina
Se o estudo australiano comprova que a jornada hormonal é gradual e individual, a medicina moderna oferece ferramentas que permitem à mulher entender exatamente em que ponto se encontra.
Segundo Natália Gonçalves, superintendente de Inovação na Dasa, a redução do estrogênio pode alterar o pH e a composição da flora vaginal, favorecendo desconfortos, infecções recorrentes e alterações na barreira de proteção natural.
Nesse contexto, o estudo do microbioma vaginal surge como uma ferramenta complementar para a manutenção da saúde ginecológica. A médica explica que, por meio do sequenciamento genético, o exame identifica o equilíbrio entre bactérias benéficas e microrganismos potencialmente prejudiciais, permitindo uma abordagem mais precisa e preventiva.
“A saúde vaginal é um ecossistema dinâmico, que responde às variações hormonais ao longo da vida. Compreender seu microbioma permite sair de uma lógica apenas reativa de tratar infecções quando elas aparecem para uma abordagem preventiva, personalizada e baseada em dados. Isso é especialmente relevante na maturidade, quando pequenas alterações hormonais podem gerar impactos clínicos significativos no conforto e na qualidade de vida da mulher”, comenta.
Mais do que tratar episódios pontuais, compreender o microbioma ajuda a preservar o bem-estar íntimo e fortalecer a barreira natural de proteção ao longo da maturidade.
Outra tecnologia genômica que beneficia as mulheres é o painel de infertilidade. Se os exames de sangue não indicam problemas hormonais ou não são conclusivos para a avaliação da causa da infertilidade, um rastreio genético conjugal pode ser necessário. O painel analisa variações no DNA que podem estar associadas a distúrbios de infertilidade confirmados tanto em mulheres como em homens, oferecendo diagnóstico preciso da incapacidade de conceber e opções efetivas de aconselhamento e tratamento do casal.