Leituras e planejamento pedagógico: educação antirracista deve começar em janeiro

 Inaperê defende que o letramento racial seja incorporado desde o início do planejamento pedagógico anual

Iniciar o ano letivo com leituras voltadas à educação antirracista é uma decisão estratégica de gestão escolar e de posicionamento ético das instituições de ensino. A avaliação é de Leo Bento e de Andréa Ladeira, consultores, professores e fundadores da Inaperê, consultoria especializada em educação antirracista. Ambos defendem que o letramento racial seja incorporado desde o início do planejamento pedagógico anual.

Segundo Bento, quando a educação antirracista entra no planejamento logo em janeiro, ela deixa de ocupar um lugar periférico, restrito a datas simbólicas como o Dia da Consciência Negra, e passa a estruturar o projeto educativo ao longo de todo o ano. “Trata-se de compreender a educação antirracista como cultura institucional, e não como ação pontual ou evento isolado”, afirma.

O início do ano letivo, segundo Andréa Ladeira, é o momento em que educadores, coordenadores e gestores definem prioridades, metodologias e referências teóricas. “A incorporação de leituras antirracistas nesse período permite identificar e intervir precocemente em estereótipos, práticas discriminatórias e dinâmicas de exclusão que, se ignoradas, tendem a se consolidar ao longo do ano”, salienta. Para a gestão escolar, o domínio teórico também atua como um instrumento preventivo, oferecendo mais segurança para a mediação de conflitos e o diálogo com famílias e comunidades escolares.

Critério e crítica: o que ler e como escolher as obras

Um ponto destacado por Bento é a curadoria das leituras. Para ele, uma prática educacional verdadeiramente antirracista exige o rompimento com o predomínio exclusivo de referências eurocêntricas, priorizando intelectuais negros e indígenas e perspectivas decoloniais sobre educação e sociedade. “É fundamental incluir narrativas literárias que ampliem a compreensão subjetiva das relações raciais e promovam transformações mais profundas no cotidiano escolar”, explica.

A aplicabilidade prática também deve ser um critério central na escolha dos materiais. As leituras precisam dialogar com a realidade da gestão educacional brasileira, considerando aspectos como raça, gênero, classe e território, além de fenômenos como o colorismo e o mito da democracia racial. No planejamento anual, as Leis 10.639 e 11.645 devem funcionar como diretrizes estruturantes do currículo, e não como exigências burocráticas isoladas.

Para a Inaperê, a consolidação de uma cultura escolar antirracista passa pela revisão de materiais didáticos, pela promoção de metodologias interdisciplinares e pela criação de protocolos de convivência baseados na pedagogia da reparação. “Quando educadores se engajam em processos contínuos de estudo e reflexão, a escola se torna um ambiente mais seguro, fortalece a autoestima de estudantes negros e indígenas e reafirma seu compromisso com a justiça social”, conclui Leo Bento.

Sobre a Inaperê

A Inaperê é uma consultoria especializada em DE&I e que oferece uma série de ações que visam a ampliação da diversidade e garantia de equidade no ambiente escolar e empresarial. Fundada pelos educadores Leonardo Bento e Andréa Ladeira, desenvolve ações de letramento racial e histórico em escolas, empresas e instituições públicas, aliando rigor acadêmico, prática pedagógica e vivência territorial. Entre seus projetos, destacam-se as consultorias em equidade racial para empresas e escolas, a Biblioteca Comunitária da Paz, as Trilhas das Memórias Negras e o grupo de estudos Entrelinhas Afro-Indígenas, que acontecem mensalmente na cidade de São Paulo.

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