Por que o Rio é conhecido como "Cidade Maravilhosa"?

 Epíteto foi criado pela poeta francesa Jane Catulle Mendès, cuja trajetória é contada no livro "A poeta da Cidade Maravilhosa", de Rafael Sento Sé, que será lançado neste sábado, 01/11, na Travessa de Ipanema

Capa / Divulgação - Autêntica Editora
O livro "A poeta da Cidade Maravilhosa", de Rafael Sento Sé, será lançado neste sábado, 
1/11, a partir das 17h, na Livraria da Travessa de Ipanema



Jane Catulle Mendès: a poeta esquecida que batizou o Rio de Janeiro como Cidade Maravilhosa

 Pesquisa inédita revela a trajetória da escritora francesa que consagrou o epíteto reconhecido internacionalmente como uma marca carioca e revisita a então capital federal no ano em que as mulheres foram às ruas celebrar a criação do Partido Republicano Feminino e que o homem voou pela primeira vez de avião sobre a Baía de Guanabara

Em 1911, a chegada de uma escritora francesa à capital carioca mobilizou a imprensa brasileira como poucas vezes se havia visto. Jane Catulle Mendès, figura proeminente no cenário literário francês, teve sua vinda ao Brasil transformada em acontecimento cultural pelos jornais locais. Descrita em termos grandiloquentes, ora por seus atributos físicos, ora por seu talento, sua estadia no país foi marcada por uma intensa agenda de palestras, conferências e produção intelectual, culminando na criação da imagem que se transformaria no símbolo maior do Rio de Janeiro: a da “Cidade Maravilhosa”.

Foi assim que a poeta se referiu à cidade pela primeira vez, impactada pelo pôr do sol que presenciou ainda a bordo do navio. Sem imaginar, cunhou o epíteto que atravessaria o tempo e projetaria o Rio de Janeiro aos olhos do mundo. Essa autoria, até então praticamente desconhecida, é finalmente restituída graças ao trabalho do jornalista e pesquisador Rafael Sento Sé, que publica A poeta da Cidade Maravilhosa pela Autêntica Editora, no qual recupera a trajetória daquela que foi uma grande celebridade de sua época.

BN, Reprodução
Depois do lançamento de La ville merveilleuse, Jane organizou uma série 
de eventos de gala para promover o Brasil. Num deles, saudou a amiga
 carioca Júlia Lopes de Almeida com um banquete em Paris

O primeiro lançamento, como não poderia deixar de ser, acontece no Rio de Janeiro. Na Cidade Maravilhosa, o evento acontece no dia 1 de novembro, sábado, a partir das 17h, na Livraria da Travessa de Ipanema (R. Visc. de Pirajá, 572 – Ipanema). De lá, o autor parte para Brasília. Na Capital Federal o lançamento acontece no dia 4 de novembro, terça, a partir das 19h, na Livraria Platô (Asa Sul CLS 405, Bloco A, Loja 12 - Plano Piloto).

O livro é fruto de uma investigação que se estendeu por 13 anos, envolvendo arquivos, jornais da época, correspondências e rastros esparsos para entender quem foi esta figura que causou fascínio, foi responsável por cunhar uma expressão até hoje imortalizada e que foi praticamente esquecida da memória literária do Brasil e até mesmo da França. Esse percurso levou a outra descoberta: o volume La Ville Merveilleuse, publicado por Jane em Paris, em 1913, composto por 33 poemas que revelam seu encantamento pela cidade. Inédito até agora em português, o livro apresenta também a tradução desses versos.

"Com maestria literária e apoiado em notável pesquisa, Rafael Sento Sé nos oferece testemunhos da emancipação feminina nas primeiras décadas do século XX. Conduz-nos também ao ambiente intelectual e social de Paris e do Rio", escreve a historiadora Mary Del Priore no texto de orelha que assina para o livro.

 

Reprodução O Malho
Madame Catulle Mendès e sua assistente Mathilde “fazendo a Avenida” 
na companhia de Ernesto Senna, do Jornal do Commercio


Mas quem foi Jane Catulle Mendès?

Jane Catulle Mendès nasceu em 1867 e morreu em 1955 – há exatos 70 anos. Na França, já se destacava por escolhas ousadas. Trabalhou em um jornal inteiramente produzido por mulheres, uma raridade para o período (e talvez ainda hoje). Foi comadre da atriz Sarah Bernhardt, a mais célebre estrela teatral de sua época, e conviveu com escritores e artistas que moldaram a cultura francesa do início do século XX.

Sua família também a aproximava do universo das artes: era viúva do poeta Catulle Mendès, criador e grande divulgador do parnasianismo, estilo em voga também no Brasil e que teve em Olavo Bilac seu maior expoente. Suas enteadas foram imortalizadas por Renoir no célebre quadro As meninas ao piano, hoje no Metropolitan Museum, em Nova York. Jane e o marido abriram espaço em seus saraus para jovens talentos, e foi nesse ambiente que Jean Cocteau recebeu incentivo decisivo para iniciar sua carreira. Já de seu primeiro casamento, o filho Marcel Boussac viria a se tornar o homem mais rico da França e um dos financiadores da maison Dior.

Essa autonomia e visibilidade pública faziam de Jane uma mulher incomum para sua época — e no Brasil não foi diferente. Pretendia ficar poucas semanas e permaneceu três meses, tempo suficiente para se tornar um acontecimento cultural. Ainda nos primeiros dias no Rio, convidou jornalistas para um chá no Hotel dos Estrangeiros — gesto pioneiro que se assemelha a uma coletiva de imprensa, sinalizando sua disposição em se apresentar como intelectual autônoma. Essa autoafirmação, no entanto, também a expôs aos limites da sociedade patriarcal da Belle Époque carioca, como as caricaturas publicadas sem sua autorização, resultado de um trabalho análogo ao dos paparazzi que conhecemos hoje.

 

No Brasil, o encontro de uma constelação igualmente esquecida

As descobertas sobre a passagem de Jane Catulle Mendès pelo Brasil levaram Sento Sé a recuperar também a rede de relações que a poeta estabeleceu no país com mulheres escritoras que, como ela, enfrentaram apagamentos históricos e sobre as quais dedica especial atenção no livro.

Entre elas, Júlia Lopes de Almeida, anfitriã da francesa em seu famoso “salão verde”, que participou ativamente da fundação da Academia Brasileira de Letras, mas foi impedida de ocupar uma cadeira por ser mulher. Gilka Machado, reconhecida por sua poesia erótica e considerada uma das primeiras vozes a assumir publicamente a sexualidade feminina; Leolinda Daltro, professora, sufragista e indigenista brasileira, fundadora do Partido Republicano Feminino, em 1910; e Emília Moncorvo Bandeira de Melo, jornalista, romancista, contista e dramaturga.

 

Monica Ramalho
Rafael Sento Sé, autor de "A poeta da Cidade Maravilhosa": 13 anos de pesquisa 
dedicados à poeta que ajudou a construir a imagem simbólica do Rio de Janeiro


Sobre o autor

Rafael Sento Sé é carioca da Glória, jornalista e assíduo leitor de jornais antigos. Foi repórter da revista Domingo, do Jornal do Brasil, e colunista de bares e de patrimônio da Veja Rio. Idealizou o blog RJ-450 para realizar a contagem regressiva para os 450 anos do Rio de Janeiro. Para a Prefeitura, fez a curadoria da Biblioteca Rio450, coleção de livros sobre o Rio de Janeiro idealizada para comemorar a efeméride. Realizou pesquisas para o dossiê de tombamento da tradicional Bênção dos Barbadinhos e para a linha do tempo sobre os 80 anos da Editora Record, apresentada na Flip, em 2022. 'A poeta da Cidade Maravilhosa', pela Autêntica, é seu livro de estreia.

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